“Antes de sermos homens ou mulheres, somos corpos que sentem.” — inspirado em Merleau-Ponty
Antes de sermos homens ou mulheres, somos corpos que sentem. Lembro-me dessa provocação de Merleau-Ponty sempre que percebo o quanto falar sobre sexualidade se tornou, na verdade, falar sobre o silêncio. Não aquele silêncio gostoso do pós-prazer ou do descanso, mas o silêncio pesado da vergonha, do medo e da inadequação.
Quantas vezes você já se pegou na obrigação de dar conta de algo que sequer compreendia por inteiro? Aquela cobrança velada de precisar ser mais, sem nem saber o que esse mais significa na prática. Fomos empurrados para roteiros prontos: o homem no lugar da performance e do controle absoluto; a mulher no lugar da entrega e da estética perfeita. O problema é que ninguém nos ensinou a escutar o próprio corpo antes de tentar moldá-lo ao que o mundo espera. Gosto de pensar no que Simone de Beauvoir escreveu sobre o tornar-se mulher, e que serve perfeitamente para o tornar-se homem. Esse processo de construção não é natural, ele é aprendido, e quase sempre dói.
No consultório, essa dor raramente chega com um nome claro. As pessoas chegam dizendo que o desejo sumiu, que o corpo travou na hora da intimidade ou que o prazer virou um labirinto sem saída. Mas, se a gente escutar com um pouquinho mais de vagar, a pergunta real que está por trás de todos esses relatos é uma só: Será que tem algo de errado comigo? É uma dúvida que ecoa no peito porque não fala de sexo, fala de pertencimento. É o medo de falhar na vida, de não ser aceito, de ser descoberto como uma farsa. Binswanger, um grande pensador e filósofo, tinha uma sacada genial ao dizer que a sexualidade não é um impulso biológico isolado, mas a nossa própria forma de estar no mundo. O modo como a gente deseja, ou como a gente se tranca para o desejo, revela como nos vinculamos com as pessoas e onde estão as nossas feridas. Isso explica, por exemplo, por que casais que se amam profundamente e se respeitam entram em colapso na cama. Amar alguém não nos dá o manual de como tocar ou compreender essa pessoa na sua totalidade.
Com o tempo, a gente comete o erro de congelar o outro. Criamos uma imagem fixa do parceiro, achando que já sabemos de cor quem ele é. Paramos de perguntar, de olhar de verdade, de nos surpreender. Só esquecemos que ninguém é o mesmo de ontem. Somos processos em constante movimento, mas insistimos em tratar o outro como um objeto estático. Reduzir a sexualidade ao ato físico é empobrecer a nossa existência. Ela está nas entrelinhas, no jeito de caminhar, na escolha de uma roupa, nos silêncios incômodos e nas fantasias confessionais. A sexualidade é linguagem pura. É história viva.
Por isso, a clínica não pode ser um tribunal de certo e errado, nem um espaço para dar diagnósticos rápidos que servem apenas para acalmar o terapeuta. A terapia é o lugar para despir as máscaras, não as roupas. É onde a gente se permite escutar o que foi calado por anos para, quem sabe, restabelecer a soberania do próprio corpo.Se você sente que algo está fora do lugar, mas não sabe nomear, o primeiro passo é não ter pressa para achar uma resposta pronta. Às vezes, o que a gente precisa é apenas de um espaço seguro para desacelerar e começar, bem devagarinho, a nos reconhecer de verdade.
